OPINIÃO

Tem sido uma experiência desafiante, esta de ser comentador desportivo de arbitragem.

Permite-me ter outra perspetiva e olhar para as situações com maior distância.

Vem isto a propósito de algumas constatações que os últimos tempos têm sido férteis em mostrar-me:

A primeira é a de suspeitar que alguns árbitros poderão estar “incomodados” comigo.

Era expetável. Afinal de contas, eu era o colega sempre ativo na defesa do grupo, que parece agora ter trocado todas essas dores pelo escrutínio implacável dos penáltis, pela análise rigorosa dos vermelhos e pela interpretação milimétrica dos foras de jogo. Eu era o tal que dizia que a greve era a bomba atómica. A última opção.

O mais engraçado é que era… e sou.

A realidade é que mudou: já não sou árbitro. Sou profissional noutra área, embora procure sempre defender e valorizar a arbitragem. E tal como acontece, por exemplo, com o agora presidente da Liga (antes árbitro e referência de liderança na classe) ou com o atual presidente do CA (antes presidente da APAF e apoiante de todas as medidas dos árbitros), também eu tenho, neste momento, outra missão à qual devo respeito, honestidade intelectual e independência.

Por isso e no que se refere à análise de lances (a parte que menos gosto), as imagens televisivas são, de facto, o instrumento de trabalho, porque esta é a era da “verdade laboratorial”. Os árbitros sabem disso porque têm a mesma ferramenta para os auxiliar na análise de lances delicados. Sabem porque essa é a grande base da sua avaliação cá dentro e lá fora. Sabem porque os meios disponíveis são tantos que não há como escapar a isso. Goste-se ou não, concorde-se ou não.

Já no que diz respeito a emitir opiniões, não me levem a mal por ter achado vergonhoso que, depois de um pré-aviso de greve feito há dias e perante o crescimento do problema que o fundamentou, a resposta ter sido ténue. Primeiro, com um ensaio mal preparado de uma dispensa para o imediato (alegando motivos pessoais e falta de condições psicológicas), depois com novo recuo, fundamentado em preocupações regulamentares. Tudo num momento em que tinham do seu lado imprensa, clubes e adeptos. É caso para perguntar: as questões pessoais deixaram de ser impedimento de repente? A falta de condições psicológicas desapareceram de um momento para outro? Havia ou não havia motivos suficientes para avançarem, em defesa do vosso bom nome e da vossa segurança (e das vossas famílias)? Desculpem, mas foi feio sim.

Mas a experiência de comentar não se resume apenas a esse dano colateral.

Não deixa de ser também engraçado (a expressão é muito sarcástica) perceber que, aqui e ali, ecoam alguns sopros (ainda que ténues e superficiais) que mais não são do que tentativas tímidas de obter parecer favorável sobre determinado lance, em determinado jogo.

Como se uma pequena sugestão “muito bem intencionada” para rever um vídeo aqui ou uma opinião acolá fosse suficiente para fazer vacilar quem, durante anos a fio, aprendeu que a linha reta é a única que faz sentido neste caminho cheio de pedras.

Fica a mensagem: deixem-se disso. Fica-vos mal e só sublinha a ideia que ainda há quem pense que pode influir na liberdade de pensamento dos outros. Não. Não pode.

Deixem o protagonismo para quem está no campo e convençam-se: é lá e só lá que se ganham os jogos. O resto é folclore para entreter o povo e destruir o espetáculo. E nisso só alinha quem quer.

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