Começar pelo princípio

Código de Conduta para Pais

O flagelo da violência no desporto é, infelizmente, uma realidade cada vez mais evidente em Portugal.

Apesar do número ser ainda estatísticamente diminuto (quando comparado com os milhares de jogos, de diferentes modalidades, que se disputam aos fins de semana), a verdade é, nesta matéria, tem que vigorar uma política de “tolerância zero”.

No caso concreto do futebol, o mais mediático e aquele que, por cá, espoleta mais emoções e incidentes, os números oficiais de agressões crescem época após época e isso é inequívoco.

Os árbitros são, regra geral, as vítimas preferênciais, mas há também registos de violência física contra treinadores e jogadores.

Paremos para refletir um pouco.

Quando um dos três agentes diretos do jogo – os mais importantes, os únicos que tomam parte ativa no espetáculo – são agredidos, algo de muito errado está a acontecer. Algo está a falhar e alguém deve ser responsabilizado por isso.

Árbitros, jogadores e treinadores deviam ser, acima de tudo e de todos, absolutamente intocáveis e protegidos.

A violência contra qualquer um destes agentes desportivos é a perversão completa do sistema. É a pior propaganda para o jogo e um crime grave, que deve ser desincentivado e combatido de forma feroz.

No caso concreto da arbitragem, os dados oficiais são claríssimos e alicerçados em duas evidências:

1. O número de ocorrências é maior nos escalões jovens;

2. As agressões têm, por regra, dois tipos de autores: os adeptos (muitos dos quais, pais de jovens atletas e sempre em jogos sem policiamento) e jogadores ou elementos oficiais das equipas (quando as forças policiais estão presentes).

Quer isto dizer que a mera presença de agentes de segurança pública diminui drasticamente a iniciativa de agredir por parte de quem está a ver o jogo.

Enquanto esse problema – o da reflexão séria sobre a questão do policiamento – não se resolver em definitivo (a verdade, nua e cura, é que valores mais altos se levantam e esses são superiores ao risco de alguém morrer em campo) e enquanto a estratégia de combate a este flagelo não se tornar uma prioridade da tutela e de todos as instâncias com responsabilidade direta e indireta nesta matéria, a única coisa a fazer é… tentar prevenir.

É importante não baixar os braços e criar um conjunto de medidas, estratégias e políticas que levem o adepto comum, o pai ou a mãe, a adotarem um comportamento ético que deixe os seus filhos orgulhosos e libertos para fazerem o que mais gostam, de forma descontraída, entretida e… feliz. Essencialmente feliz.

Neste contexto, os passos serão sempre pequeninos e demorados, mas um passo é sempre um passo e, por estes dias, é sempre melhor do que não fazer nada.

Uma das ideias a implementar devia passar pela criação de uma espécie de “Código de Conduta para Pais”.

Algo que devia ser distribuído por todas as associações e por todos os clubes e que devia estar colado, em letras garrafais, em cada canto, em cada esquina, em cada parede de cada recinto desportivo.

Algo que, mais do que uma mera fonte de inspiração, fosse moralmente obrigatório, éticamente vinculativo.

Algo cujo incumprimento grave e inequívoco resultasse em consequências criminais, para os infratores e desportivas, para os clubes responsáveis por zelar pela seguranca dos principais atores do jogo.

Porque não algo mais ou menos assim:

CODIGO DE CONDUTA PARA PAIS

1. Eu, pai e adepto, assumirei a responsabilidade do meu comportamento, bem como de todas as pessoas que me acompanharem.

2. Comprometo-me a passar ao meu filho a mensagem que o desporto está assente em valores positivos e de excelência.

3. Promoverei o espírito desportivo, respeitando jogadores, treinadores e árbitros, mesmo que não concorde com as suas decisões.

4. Em primeiro lugar está o bem estar emocional e físico do meu filho. O seu entretenimento e alegria. A vontade de vencer vem depois.

5. Eu estarei sempre em controlo das minhas emoções.

6. Durante a competição, permanecerei (e nunca ultrapassarei) a área reservada a espectadores.

7. Irei exigir que o meu filho jogue em ambientes seguros e saudáveis, livres de droga, tabaco e álcool.

8. Mostrarei respeito por todos os intervenientes, em todos os momentos (antes, durante e após a competição).

9. Nunca irei pedir ao meu filho que prejudique ou lesione outros participantes, de forma deliberada e/ou conscientemente.

10. Instruirei o meu filho a tratar todos os intervenientes com respeito, independentemente da sua raça, sexo, credo ou habilidade para a função.

11. Irei abster-me de tecer comentários insultuosos ou ofensivos para jogadores, pais, árbitros ou treinadores de ambas as equipas.

12. Exigirei que o treinador do meu filho seja alguém responsável e qualificado para lidar com os mais novos jovens.

O caminho faz-se caminhando e, historicamente, percebemos que as grandes mudanças acontecem da forma mais simples. Com as medidas mais fáceis de pensar, criar e implementar.

Se cada um fizer a sua quota-parte, todos farão muito. Todos conseguirão a mudança.

Nota – O mundo não pode ser um lugar tão perverso, ao ponto de chamar “lírico e idealista” a quem acredita, genuinamente, que com empenho, as coisas podem mesmo mudar.

Mal seria.

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