PRÉDIO VANDALIZADO!

O mundo maravilhoso da bola.

Esta madrugada, o prédio onde mora Vasco Santos (que, por sinal, também é árbitro de futebol) foi vandalizado.

Isto aconteceu e é um facto irrefutável.
Vamos a outros?

O Vasco foi o VAR que, erradamente, não informou o seu colega de campo que o lance entre Eliseu e Diogo Viana era passível de expulsão.

Ou seja, tecnicamente, tomou uma má decisão.

Reconhecendo isso, o Conselho de Arbitragem deixou-o de fora alguns jogos. Não apitou. Não fez o que mais gosta. Ficou de castigo. Tal como ficam outros colegas que erram. Tal como fiquei quando errei. Ponto.

Desde esse jogo, a sua vida pessoal e familiar tornou-se um inferno.

Hoje, depois de vários dias de ameaças, um grupo de doentes mentais anónimos vandalizou a casa do cidadão Vasco Santos.

Ao fazê-lo, perturbou também a área onde moram os seus vizinhos (sim, ele é como os restantes humanos: tem vizinhos e tudo).

Atribuir a culpa a alguns responsáveis do nosso futebol ou a parte da imprensa… culpar alguns pseudo-fazedores de opinião ou um grupo restrito de adeptos criminosos seria redutor. Totalmente redutor.

Isso não mudaria nada. As paredes continuariam pintadas com insultos/ameaças tal como os vidros dos talhos ficaram partidos ou os carros riscados.

O que agora aconteceu não é novo e voltará a repetir-se, seguramente com outros atores.

A verdade é que o nosso futebol não só aceita como muitas vezes fomenta – por omissão – este tipo de comportamentos, por estar demasiado centrado no seu umbigo:

Os adeptos querem apenas ganhar; os clubes querem resultados; os dirigentes querem poder e manter o cargo; e parte significativa da imprensa procura apenas sobreviver. Ponto.

No meio de tanto narcisismo – que me dizem “fazer parte” e eu digo ser gritante falta de escrúpulos – raros são aqueles com uma visão altruísta, de valorização do jogo como um todo. Porque a melhoria do todo seria sempre a melhoria da parte. De cada parte.

E é neste mundo que nascem e reproduzem-se, como coelhinhos, um conjunto de assalariados cujo maior desafio profissional é branquear erros próprios, desviar atenções, destruir os adversários (perdão, os inimigos) e infetar os mais ignorantes – que por cá são muitos – com mensagens hipnotizantes de ódio.

Tudo, lá está, sob a máscara de ideais de justiça e na “busca incessante pela verdade desportiva” (cliché número 1).
Seria bonito se não fosse óbvio que é estratégico.

Repito:

Este “modus operandi” não foi inventado agora nem é apenas arquitetado por alguns. Tem séculos, é generalizado e protagonizado hoje por estes, amanhã por aqueles.

Depende do que está em jogo, a cada momento.

O Estado português, responsável maior por toda a família e por este enorme aglomerado de sobreviventes, continua a ver tudo isto como um mundo à parte.

Porquê? Porque lhes interessa manter as relações que lhes podem garantir apoio político e votos futuros.

Em casos mais dramáticos – como agressões a árbitros, pancadaria entre adeptos ou visitas privadas a centros de treino, por exemplo – há sempre o inefável “apelamos ao faiplay ” (cliché número 2).

E assim se vive, por estes dias, no mundo encantado do futebol.

O mundo onde um novo personagem (VAR) engrossou as opções dos malandros que lideram a lista com os alvos mais fáceis para aterrorizar.

O mundo onde um árbitro que diz palavrões apanha três jogos de castigo, sem ser ouvido e em menos de um dia mas onde cotoveladas, pisões ou “vale tudo o que é impropérios” nos bancos técnicos demoram meses a ser analisados e aqui e ali, castigados. Ou repreendidos. Ou por vezes nem isso.

O mundo onde quem faz justiça não teve aulas sobre leis de jogo mas frequentou uma pós-graduação em análise de calão em língua portuguesa.

De resto, no passa nada.

Amanhã já há bola de novo e com ela virão mais penáltis e mais vermelhos e mais toda aquela conversa que a malta adora.

Nós encontramo-nos por cá na próxima vandalização. Ou agressão. Ou insulto. Ou destruição de paredes. Ou montras quebradas. Ou dentes partidos. Ou bastão na cabeça. Ou mails e sms anónimos. Ou divulgação de dados pessoais na net. Ou pneus rasgados. Ou carros amolgados. Ou ameaça à família. Ou qualquer coisa dessas, sem importância nenhuma.

Nota – Podia ser pior. Diz que no Chipre põem-lhes bombas nos carros…

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