Pé esquerdo – Crónica “A Bola”

Esta altura do ano traz-me à memória um “incidente” de percurso, ocorrido há muitos anos.

Desta vez, não me refiro a algo que recorde com particular orgulho. Pelo contrário.

Mas deixem-me então recuar um pouco no tempo: Junho de 1991.

Aqui o vosso escriba tinha apenas dezoito anos. Era um menino feliz. Estava prestes a ingressar na universidade e a fazer a estreia como árbitro estagiário. Tudo corria bem.
Aproveitei o merecido período de férias para rumar até Aveiro, cidade onde vivera uns anos antes e das quais guardava – como guardo – excelentes recordações.

A praia da Barra, apesar da água gelada, foi sempre a minha favorita. Bom areal, gente simpática e claro, as inesquecíveis tripas à saída para saciar a gula.

Num desses dias, de dolce fare niente e depois de mais um dia de descanso no registo habitual, regresso a casa. Habitualmente fazia-o de bicicleta mas dessa vez aproveitei a boleia de um familiar, que por sinal até era polícia. E já perceberão a relevância desta informação.

Ao arrancarmos, percebi que ele tinha a arma colocado junto ao banco do condutor. Fiquei curioso, nunca tinha mexido numa coisa daquelas. Perguntei-lhe se podia tocar. Ele respondeu afirmativamente, mas logo avisou-me para ter muito cuidado porque estava carregada.

Disse-lhe que não se preocupasse mas na verdade não resisti: lá peguei na Valter 9mm. Momento mágico e de plena afirmação para um pseudo-adulto em idade do “primeiro faço, depois penso”.

Lembro-me de a ter achado pesada. Bem mais pesada do que imaginava. Sempre cuidadoso, virei-a para baixo não fosse o diabo tece-las. O problema é que… o diabo teceu-as.

Não sei bem porquê, achei que era seguro puxar o “cão” para trás. Mal o fiz, ouvi um estrondo que hoje consigo recordar ao pormenor. Parecia uma bomba mas sem explosão. Só impacto. Só ruído.

Paralisei. E perante a estupefação dele, repetia: “Desculpa! Nem sei como fiz isto! Desculpa”!

Ficou apavorado. E eu insistia para que mantivesse a calma, porque estava tudo bem.
De ar incrédulo, estacionou junto à berma.

Eu tentava camuflar a asneira com argumentos ocos. Sem sentido. Falei muito mas não disse nada. O zumbido era ensurdecedor. Parecia que estávamos rodeados de abelhas. Não se percebia uma ideia, uma palavra. Nada.

Do nada, cai em si, olhou-me nos olhos e quase sem força na voz, perguntou-me: “Estás bem, Duarte?”.

Culpado, sorri e voltei a dizer-lhe que sim. Que estava tudo bem. E que queria apenas sair dali para fugir àquele ruído enervante e ao cheiro a pólvora.

Quando tentei calçar os chinelos (tinha-os descalçado na viagem), vi que tinha algo pegajoso, amarelado e muito espesso a sair da parte de cima do pé esquerdo. Algo viscoso. Estranho.

Confuso, disse-lhe: “Acho que me sujei”.
Ele, ainda mais pálido, só insistia: “Estás mesmo bem?!?”

Passados uns minutos é que percebi o que se passava. O tal líquido ficou alaranjado e a perna, do joelho para baixo, sem sensibilidade.

Que brincadeira arranjei eu ali.
A bala entrou por cima do terceiro e quarto dedos e saiu do outro lado do pé. Depois fez ricochete no chão e ficou presa no porta luvas. Metade fora, metade dentro.
Ainda hoje a tenho guardada.

Quando chegámos ao Hospital de Aveiro, comecei finalmente a sentir dores. E meus amigos, deixem-me que vos diga… que dores!!
A aventura saiu-me cara mas podia ter sido pior. Hoje sei bem disso.

Pagar com “apenas” dois meses e meio de gesso, uma tala até ao joelho, doze pontos (sete de um lado, cinco do outro), quatro dedos partidos (dois diretamente, os vizinhos do lado por “simpatia”) e várias caixas de Tramal… nem foi o pior que me poderia ter acontecido.

Sei que, poucos meses depois, comecei a arbitragem com o pé esquerdo (que é como quem diz, com o pé furado). A partir do primeiro jogo, entrei sempre em campo com o direito. Vá se lá saber.

Quanto a armas, só nos filmes. E, e…”

In Jornal “A Bola” – 25 de Julho 2017

 

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