OS NOVOS DESAFIOS DA TECNOLOGIA

Conselhos para o mundo da bola

Ponto prévio: sou totalmente favorável à implementação da tecnologia no futebol.

Sou igualmente da opinião que a vídeo-tecnologia repõe maior verdade desportiva. Ponto.

Dito isto, permitam-me alguns conselhos generalizados:

 

Caros árbitros:

Penso que há um passo importante para dar em breve: o de “apertarem a malha”.
Sabemos que faz sentido a diretriz internacional para a mínima interferência e que a estão cumprir na íntegra.
Mas a prática recente tem-nos mostrado, aqui e ali, que há algum “excesso de zelo” na altura de intervir.

Vejam isto com outra distância: o que a video-tecnologia pressupõe é que se sirva o futebol, dando-lhe mais verdade.
Isso significa que quando uma imagem mostra que há penálti, é porque há penálti. Quando mostra que uma entrada é violenta, é porque ela é violenta. Quando mostra que é grosseira, é porque ela é grosseira.

Não é preciso que um erro seja transcendental ou visto da lua para que possa ser corrigido: basta que ele exista. Certo?

 

Caros árbitros assistentes:

A recomendação de não punir o fora de jogo (em caso de dúvida e/ou perigo potencial) faz todo o sentido: mais vale anular, tardiamente, um golo ilegal do que interromper, precipitadamente, um que deveria acontecer. E bem

Mas, em vossa defesa e para bem do jogo, procurem calibrar essa bitola. É que a vossa principal missão continua a ser a análise do fora de jogo.

Se ele existe, punam-no.

Depositar demasiadas certezas na vídeo-verdade pode nem sempre ser a melhor opção: pensem que poderá haver o dia em que um offside não assinalado dará lugar a uma falta ou canto e que daí nascerá um golo. Nada a fazer. É um dissabor a evitar.

 

Caros treinadores/jogadores:

Por favor, não se aproveitem da video-vantagem.

O encosto ao adversário na busca de um qualquer empurrão, a intromissão nas pernas do defesa para justificar a falta ou o aparato na queda após um contacto que foi provocado… pode até iludir a vídeo-análise, pode iludir quem vê as imagens frame a frame, mas não vos prestigia nem vos define.

Não é esse o espírito da tecnologia.

Ela pode até obrigar-vos a mudanças táticas (e obrigará) mas não deve descaraterizar a vossa essência e a vontade de vencerem… com mérito.
Parece-vos bem? Pensem nisso.

 

Caro Duarte Gomes, caros comentadores, caros jornalistas:

Não se esqueçam que já foram árbitros, jogadores, dirigentes e/oupersonagens ativas no futebol.

Sabem o que se sente e o que se vê em campo.
Conhecem a dinâmica do jogo, a natureza dos contatos e a normalidade dos choques.

Não se tornem em “árbitros de laboratório”.
Não permitam que a vossa análise seja escrava absoluta de imagens repetidas até à exaustão.
Mantenham, com sensatez e equilíbrio, a ponte entre a experiência vivida e a função que hoje desempenham.

Se cada um ajudar, todos conseguem.

 

In Jornal “A Bola” – 28 de Agosto 2017

 

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Videoárbitro
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