O DERBY DE ALVALADE

Os jogos do passado fim de semana definiram as contas relativamente ao título. Contas definidas, curiosamente, a mais de trezentos quilómetros, no dérbi que opôs os dois maiores rivais do novo campeão nacional.

Foi, por isso, uma jornada intensa, vivida e sentida por muitos com emoção e, claro está…. desproporção.

No campo, as três equipas deram o seu melhor. Acertaram muito e erraram quanto baste.

Nas bancadas, aconteceu exatamente o mesmo: muitos adeptos portaram-se com fairplay e educação, enquanto outros arremessaram petardos e tochas para o relvado ou entoaram cânticos a ironizar com a morte de apoiantes rivais.

Cá fora, uns digeriam o resultado final com resignação e desportivismo, enquanto outros passavam a esponja nos seus erros, apontando o dedo ao suspeito do costume, como se a sua atuação – neste jogo muito sofrível -, fosse a única responsável pelos resultados de uma época inteira, que iniciou… em agosto de 2017. Haverá paciência para aturar isto, anos após ano?

Não vale pena dizer mais nada quando tudo está dito. Há coisas que a voz da razão só ouve muito, muito tempo depois. Ou talvez não.

Mas essa é uma análise que deixo para outros. A minha cinge-se à opinião dos lances.

Carlos Xistra e Hugo Miguel, meus amigos de muitos anos, árbitros internacionais, de competência comprovada em centenas de jogos e largos anos de futebol profissional, fizeram um mau trabalho.

Por esta altura, também eles já o perceberam e garantidamente, lamentaram e lamentam.

Estes são jogos diabólicos. Eu que o diga, que sinto não ter estado bem em nenhum dos muitos que dirigi. O público contagia de outra forma e deixa jogadores e técnicos mais nervosos, mais ansiosos. Estes tendem a descontrolar-se mais vezes, a protestar com mais decibéis, a criar mais conflitos. Há mais quedas (e aparato) nas áreas, mais entradas duras, mais rispidez em cada lance. Há menos lucidez nas reações, menos tolerância às decisões e menos encaixe das emoções. É um verdadeiro pesadelo para quem está lá no meio, acreditem.

Jardel, Carlos Xistra e Rui Patrício em discussão no dérbi lisboeta

Jardel, Carlos Xistra e Rui Patrício em discussão no dérbi lisboeta
PEDRO FIUZA/GETTY

Mas nem isso pode atenuar a verdade nua e crua que as imagens evidenciaram. E sim, hoje os árbitros já se podem socorrer das imagens para errar menos e acertar mais.

Xistra e o seu VAR erraram, de forma mais evidente, quando decidiram não expulsar Rúben Dias e Bruno Fernandes. Terão sido os lapsos mais flagrantes da partida.

Ambos cometeram condutas violentas evidentes, sobre Gelson Martins e Cervi. As imagens não deixaram margem para dúvidas e mostraram, de forma clara, que uma e outra ação justificavam o vermelho direto.

Depois houve outros dois erros, mas esses menos evidentes. Porque, de novo, situam-se no intratável campo da subjetividade. O tal que permite que cada um leia a “intensidade” da forma como lê a dinâmica habitual de um jogo que, de facto, permite contactos.

Ainda assim, é minha opinião que as duas ações de Rúben Dias na sua área, foram mais penálti e menos casualidade: no primeiro momento, o puxão ao ombro/pescoço de Mathieu, que o desequilibrou e fez cair – além do pé à altura da sua cara – justificavam que se punisse a infração; no segundo, a carga sobre as costas, feita a dois braços e a queda posterior para cima de Bas Dost… também.

Esta convicção baseia-se não apenas na leitura técnica dos lances mas também no critério seguido pelo árbitro para avaliar lances idênticos mas praticados pelos atacantes: mínimo contacto, falta para a equipa que defende.

Bas Dost e Rúben Dias em disputa no dérbi

Bas Dost e Rúben Dias em disputa no dérbi
CARLOS RODRIGUES/GETTY

Prova disso foram, por exemplo, duas faltas. A primeira, ofensiva, assinalada a Jardel sobre William (muito pouco clara), embora seja importante sublinhar que a bola que depois bateu no braço do médio do Sporting foi à queima, não foi deliberada nem justificava que se marcasse penálti.

A segunda ocorreu no último lance do jogo, quando não se vislumbrou qualquer infração de Jardel sobre Rui Patrício. Xistra apitou de imediato, interrompendo um lance que acabou dentro da baliza do Sporting.

Pelo meio, houve naturalmente boas decisões disciplinares e técnicas: por exemplo, nos minutos iniciais, Rafa, em velocidade elevada, chocou com Patrício sem que este cometesse infração.

Mas as outras, menos claras ou erradas, perseguiam a equipa de arbitragem: logo no reinício, Mathieu pisou a coxa de Fejsa, não ficando claro se o fez intencionalmente ou não. Amarelo seria sempre (no mínimo) mas não foi; vermelho talvez, se a ação foi realmente premeditada.

Também Coates atingiu Zivkovic por trás e não viu amarelo. E Pizzi escapou, por duas vezes, à advertência (aos 14 e 57m).

Coentrão podia ter visto o amarelo após entrada negligente sobre Samaris e até Misic, recém-entrado, varreu Jardel com dureza injustificada.

Erros a mais num jogo em que ninguém mas mesmo ninguém quis ajudar. Um jogo que não é para esquecer. É para recordar.

A esta distância, penso que o erro maior de Xistra foi estratégico. Quis, de forma bem intencionada, controlar o jogo com diálogo e critério largo e coerente. Regra geral, isso é algo elogiável e que até se recomenda, mas apenas quando sentimos que os jogadores estão no mesmo registo. A verdade é que o dérbi de Alvalade há muito que dera sinais de que seria tudo menos cordial. E isso exigia outra abordagem. Uma bem mais firme e enérgica, desde a primeira entrada para amarelo.

GUALTER FATIA

Salto curto para o Dragão, onde o FC Porto venceu o Feirense. Nota para a excelente decisão de Luis Godinho, após indicação oportuna do VAR, que reverteu a sanção inicial e assinalou pontapé livre direto a uma infração que, efetivamente, começou fora da área dos fogaceiros.

O campeonato está a acabar e dentro de poucas semanas todos nós estaremos, pasme-se, a torcer pela mesma equipa…

É ou não fantástico este jogo?

 

Fotos: Tribuna Expresso

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