O DIABO DESCEU À TERRA

Seria uma loucura punir com penálti todas as mãos dentro da área. Sabem porquê?

Não acontece sempre, felizmente. Mas aconteceu quarta-feira, no jogo entre os rivais de Lisboa.

O Diabo desceu à Terra, que é como quem diz à relva. E para assinalar, com estrondo, a sua presença, brindou-nos não com um nem com dois… mas com cinco lances de possível/alegada mão na bola e todos bem dentro das áreas!

Já se sabia que o dérbi tinha todos os condimentos para ser vibrante. O que não se sabia é que seria tão fértil em situações tão subjetivas como aquelas.

Esta quarta-feira, em pouco mais de noventa minutos, aconteceu de tudo: dedos, braços, mãos, punhos, antebraços, cotovelos e afins. Como alguém disse meio a brincar, meio a sério, não há quem resista a tanta chuva de meteorito.

Levando agora a coisa para a reflexão que se impõe – menos humorada, mais séria – a verdade é que as situações de “mão na bola/bola na mão” são uma valente dor de cabeça para qualquer equipa de arbitragem.

Recordo o caro leitor que, em dezembro último, discutimos esta questão noutro artigo de opinião aqui plasmado. Na altura, partilhámos convosco o que diz a letra da lei e o que dizem todas as recomendações sobre este tipo de jogadas. Para quem não se recorda, fica a garantia: são vários parágrafos de sugestões sobre como bem punir estas situações.

Mas há algo que a boa vontade do legislador não conseguiu nem consegue contrariar: a enorme subjetividade de análise que decorre de cada uma.

É que, ao contrário de outras infrações (como empurrar, carregar, saltar sobre ou rasteirar), o uso de mãos e braços na bola só é punível quando, no entender do árbitro, o jogador fizer um movimento deliberado. Ou seja, tem de haver um ato voluntário daquele para que se assinale falta.

Mas, bolas, como se mede isso? Como se consegue aferir o que se passa na cabeça de um defesa quando este joga a bola com a ponta dos dedos?

Será que o movimento que ele fez foi deliberado? Ou o contacto na bola foi apenas fortuito? Será que ele levou o braço deliberadamente em direção à bola? Ou será que foi esta que foi direitinha à mão dele? Será que a posição dos seus braços era a normal para o seu movimento defensivo? Ou será que aqueles ocupavam uma área que não era suposto ocuparem naquele contexto? Será que ele teve tempo de tirar a mão dali? Ou será que não teve?

São perguntas a mais e tempo a menos.

Se, por alguns segundos, conseguirem distanciar-se das emoções e olhar para esta questão com pragmatismo e abertura de espírito, perceberão que estamos perante uma grande chatice. Sabem qual é a maior prova? É que a maioria destes lances não se conseguem decifrar, nem depois de rever o enésimo ângulo, da enésima repetição, do enésimo slow motion.

E se isso é verdade para os adeptos, confortavelmente instalados em suas casas, sem suor, sem adrenalina nem pressão… imaginem para o homem do apito, plantado à flor da relva, com transpiração a escorrer e holofotes na cara? E imaginem como se sentirá o outro árbitro, agora aprendiz de VAR, rodeado de écrãs, pressionado pelo cronómetro, pelo seu colega de campo e pela obrigação ética de ver tudo bem e tudo rápido?

Não é coisa fácil. Acreditem.

FOTO MIGUEL A. LOPES/LUSA

Bem, mas diagnosticado o problema, há que olhar para as soluções.

De que modo poderia a lei resolver este problema? Que ferramentas poderiam ser encontradas para trazer mais justiça e eficácia a esta questão?
Há quem diga que uma boa ideia seria passar a punir todas as mãos/braços seria uma solução perfeita. Assunto arrumado.

Eu digo que seria uma loucura. Sabem porquê? Porque íamos estar a ser brutalmente injustos para todos os jogadores que estivessem de frente, de lado ou de costas e que vissem a bola bater-lhe nos braços ou nas mãos, sem terem feito qualquer gesto ou movimento nesse sentido. Sem terem culpa. E isso sim, seria injusto. Muito injusto.

Mas pior. Se isso fosse assim, seria bar aberto à batota. Iam crescer as tentativas de “tiro ao alvo”. E vários jogadores perceberiam que picar a bola direitinha para os braços de um defesa seria uma forma bem engraçada de sacar uns penáltis e, quem sabe, uns quantos cartões também. Seria um fartote. E o mais certo era que os jogos passassem a ter 20 penáltis e 50 faltas.

Obrigado, mas não, obrigado.

Querem outra solução mais extremista? Cortar os braços dos jogadores.

Podemos passar à frente?

Não. A verdade é que não há magia nem ilusão que resolva esta questão. E não há, aparentemente, forma exequível de acabar com essa coisa horrível da subjetividade, da interpretação, da leitura que é feita no momento, por quem apita.

Dizem que, se não tem solução, solucionado está.

Ainda assim, não desisto. Por isso, permitam-me as seguintes dicas a quem de direito:

1. Senhores árbitros: estejam particularmente atentos a este tipo de lances, sobretudo aos que ocorrem no interior das áreas (devido às potenciais consequências para o jogo). Antecipem, esperem o inesperado. Estejam particularmente concentrados no um para um ou nos cruzamentos com vários jogadores pela frente. Não receiem em recorrer ao VAR (ou às imagens em campo) sempre que protocolarmente o lance vos ofereça essa solução. As armas são para se utilizar. E fora do campo… vejam e revejam imagens com situações destas. Lances vossos e dos vossos colegas. Analisem-nos em conjunto, procurem sintonias, uniformizem critérios, discutam-nos. Aperfeiçoem o olho, o sentir e todos os outros sentidos em prol da melhor decisão. The more I train… the luckier I get.

2. Senhores jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas e adeptos: a única coisa que podem fazer é conhecer a lei. Saber o que diz sobre isto. Estudem-na. Informem-se. Evitem os carimbos (é, não é… foi, não foi) porque há lances que não os têm. O futebol não é uma ciência exata e raramente permite unanimidades.

Confiem em quem toma as decisões dentro do campo. Os mesmos que por vezes erram contra a vossa equipa são os que seguramente já a beneficiaram. Involuntariamente. Compreendam a dinâmica do jogo jogado, de cada jogada, de cada disputa. O futebol tem fisicalidade e contacto. Aprendam a vê-lo sem se tornarem reféns da realidade ilusória das imagens.

O futebol continua a investir milhões em muitas áreas, mas jamais arranjará dinheiro para resolver coisas tão simples… como os lances de bola na mão e mão na bola.

Dá que pensar, não dá?

 

Artigo publicado em Tribuna Expresso

  • Pinheirinho

    A lei, como aqui foi explicada tem um ponto que tem de ser o critério principal, e não um dos muitos, a Volumetria, se aumentou ou não a volumetria do corpo. Se os árbitros e Video árbitros (sem medo) começarem a julgar por esse critério (independentemente da cor do equipamento) acertarão mais vezes do que aquelas que falharão, usem o jogo de quarta feira como um case studdy se quiserem, pois nesse jogo há 4 mão na bola dentro da área, acho eu se não me passou nenhuma, sendo que a do coentrão e a do Bataglia aumentaram a volumetria do corpo, a do piccini o jogador está em rotação contrária à bola, logo e bem não é pénalti, (muito parecida com uma do André Almeida na Liga dos Campeões contra o os russos do CSKA) e a do William que coloca a mão à frente do corpo do Raúl para não o deixar ganhar a frente mas a bola bate-lhe no braço fazendo o jogador um movimento para a bola com o mesmo (aumento da volumetria logo pénalti). Que acham??

    • Armando Mota

      É um bom critério mas não deve “andar sozinho” na decisão… Há inevitavelmente movimentos dos jogadores, em que a volumetria é consequência obrigatória no movimento do jogador e não um acto voluntário… Se um jogador “salta” para cabeçear uma bola, por exemplo, é praticamente impossível de o fazer com os braços junto ao corpo. Estes obrigatoriamente se elevam.
      Eu concordo com o que o Duarte diz e já o disse num outro post dele: Esta será uma lei muito difícil de retirar muita da subjectividade da análise… No entanto há que tentar melhorar e o VAR terá um papel muito importante nesta análise, mesmo que tenha pouco tempo e esteja pressionado, neste tipo de lances deve-se demorar o tempo necessário para uma BOA decisão, sendo que o árbitro de campo deve ir ver as imagens SEMPRE ou no mínimo quando o VAR lhe disser: “Amigo tenho algumas dúvidas é melhor veres tu”

      • Pinheirinho

        Verdade, mas no ar o uso dos braços já é penalizado em caso de contacto, assim como muitos jogadores na barreira usam o braço em frente à cara para aumentar a volumetria da cabeça, usando muitas vezes o antebraço e cotovelo para cortar a bola (a meu ver é falta)
        No que eu vi na quarta o VAR e o árbitro principal mostraram o que não se deve fazer, sei que na quarta apenas existia um VAR e esse foi um dos grandes problemas, os árbitros de segunda categoria deviam de ter vindo neste dia como VAR Assistente, eram muitos jogos à mesma hora, logo, usem os recursos humanos que têm sem medos!

        PS: O erro fará sempre parte do trabalho do árbitro que está no topo da escala na ordem do erro-
        1º – árbitro (está proibido de errar)
        2º – Guarda Redes (um erro pode valer derrota)
        3º – Defesas (pode errar duas a 3 vezes por jogo)
        4º – Médios (pode errar entre 4 a 10 vezes por jogo)
        5º – Treinadores (muitos erros rua)
        6º – Avançados (pode errar várias vezes por jogo, desde marque um golo a cada 5 jonadas)

        mas de todos o árbitro é o único hoje em dia que pode, ver onde errou, corrigir e emendar o erro, por isso, usem e abusem do VAR, está lá para isso mesmo, para se corrigir um erro, se alterar a história e no fim o resultado que seja justo!

        PS2: Sou adepto da Roma e no sábado durante o jogo da Roma com o Sassuolo acho a Roma viu duas vezes um golo anulado, viu e bem, no final o jogo acabou empatado a um, uma coisa é certa, o árbitro emendou 2 erros dando justiça ao jogo e é isso que se quer!

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