A PERGUNTA QUE TODOS FAZEM…

Uma das coisas que mais ouço, a propósito de arbitragens consideradas como negativas, é que os árbitros de futebol parecem viver num mundo sem leis ou, pior, acima delas. Bem acima delas.

De facto, a sensação que as pessoas têm é que eles são os únicos agentes desportivos que passam impunes, ainda que cometendo – no âmbito das suas funções – erros que todos avaliam como graves, evidentes e grosseiros.

Essa preocupação, esse cheiro a injustiça, em tese, faz sentido.

A verdade é que, quando um jogador tem comportamento grosseiro ou violento, é expulso (ou está previsto que seja). O mesmo acontece ao treinador ou a qualquer outro elemento do banco técnico que tenha conduta irresponsável.

Isto para não falar da “outra punição”, porventura maior, que técnicos e atletas estão igualmente sujeitos: à que resulta do desagrado maciço dos sócios e adeptos (algo sempre desagradável e, por vezes, a roçar o humilhante) ou da que se traduz na não renovação de contratos (ou, no limite, na rescisão do contrato de trabalho, em plena época desportiva).

Está claro de ver que o futebol profissional é, nos dias de hoje, um universo encantador mas de tremenda pressão e exigência para todos. E, talvez por isso, cada jogo, cada jogada, cada lance, pode assumir contornos dramáticos porque, em boa verdade, pode determinar o sucesso ou insucesso, a alegria ou angústia, a continuidade ou saída de muitos dos principais intervenientes no jogo.

Intervenientes que, não esqueçamos, são pessoas. Pessoas com ambições pessoais e profissionais, com valores, amigos, família.. Como alguém disse recentemente… é complicado. Muito complicado.

Isto remete-me, de novo, para a tal sensação exterior de impunidade de que (alegadamente) gozam os árbitros. Escrevam o que vos digo: as coisas não são bem assim. De todo.

Os árbitros são punidos sim (e de diversas formas), os seus erros têm consequências práticas e, tal como tantas vezes acontece com jogadores e treinadores, isso também repercute-se nas suas carreiras desportivas.

A grande diferença é que, ao contrário do que acontece com aqueles, essas “sanções” não são tornadas públicas. Não se sabem, não se conhecem. Mas a essa reflexão já voltamos.

Carlos Xistra a rever uma jogada durante o Benfica-Vitória de Guimarães

Carlos Xistra a rever uma jogada durante o Benfica-Vitória de Guimarães

PEDRO FIUZA/GETTY

Por enquanto, percebam então o que pode acontecer a um elemento de uma equipa de arbitragem quando as coisas correm francamente mal no campo desportivo:

– Não ser nomeado para atuar durante uma ou mais jornadas. Na prática, é como se tivessem visto cartão vermelho e ficassem “suspensos” por tempo a definir. Reparem: nada diferente do que acontece com atletas e técnicos.

Sabem o que mais lhes dói nessa “paragem forçada”? É ficarem privados de fazerem o que mais gostam e, claro, deixarem de auferir as verbas a que teriam direito. Na prática, esse castigo, o da “jarra” (como alguém um dia celebrizou), mexe, diretamente, com a sua auto-estima/brio profissional e com a sua vida financeira.

– Depois há a questão da avaliação.

Todos os árbitros (e restante equipa, VAR incluído) têm uma nota por cada jogo que dirigem. O relatório, que é preenchido pelos respetivos observadores, tem parâmetros objetivos, bem definidos, que vão desde o acerto/erro nas decisões mais importantes à condição física, personalidade, movimentação, colocação, interação com os colegas, etc. Da soma dessas avaliações dependerá o seu ranking final.

GETTY

Na prática, quanto mais erros somarem, pior será a classificação final… e maior será a possibilidade de serem despromovidos. De deixarem de ser árbitros no escalão maior do futebol português.

Reparem: é mais ou menos o que acontece com as equipas que têm menos pontos no final da época: descem de categoria.

– Há ainda outra punição, mais rara mas real, que é a da instauração de processos disciplinares: qualquer conduta, dentro do terreno de jogo ou fora dele, que tenha elementos de prova suficientes que a sustente, poderá levar ao recurso a esta medida. As consequências poderão ir da aplicação de uma sanção mais leve (repreensão por escrito) a outras bem mais pesadas (pontos deduzidos à classificação final, jogos de suspensão, etc).

Reparem: nada diferente do que, por vezes, vemos acontecer com atletas e treinadores, dirigentes e clubes. E tal como acontece também com eles, a tensão pessoal que tudo isto cria é, como imaginarão, tremenda.

O número crescente de erros que um árbitro comete em campo coloca-o mais próximo dos lugares de descida. Que é como quem diz… do fim prematuro da sua carreira (raramente continuam a dirigir jogos nos escalões amadores).

– Por fim, o pior dos “castigos”: o que resulta do julgamento sumário em praça pública. O que resulta da sentença traçada pelos opinion makers, pela imprensa, pelas declarações inflamadas de responsáveis alterados.

O escrutínio a que hoje estão sujeitos coloca-os na senda de humilhacões públicas diárias. Constantes. Permanentes. A justiça feita pelo povo pode acontecer a qualquer hora, em qualquer esquina e a qualquer altura do dia.

O árbitro que comete erros grosseiros em jogos mediáticos, anda na rua como uma lebre anda na mata, em plena época de caça: com medo. Com medo ou com coragem muito negligente. E esse é um castigo que vai além do que aquele que pode e deve merecer, em termos desportivos.

Porquê? Porque afeta o seu bem-estar enquanto pessoa, porque ofende a sua integridade enquanto ser humano, porque perturba a sua privacidade, a da sua família. Porque o amordaça a uma liberdade restritiva, impedindo-o tantas vezes de ir e estar onde quer, como e com quem quer. Deixa de ser uma pessoa livre que olha para a frente e passa a ser uma presa que espreita constantemente por cima do ombro.

Isto é ou não é a pior das punições?

Não tenha dúvidas, caro leitor: os árbitros são sancionados sim e, como viu, praticamente na mesma medida e dose que o são os outros agentes desportivos. Publicar essas punições traria mais sentido de justiça e acalmaria o povo? Sim, provavelmente sim.

Mas, pensemos com outra profundidade: que efeito prático traria? Passado o período de raiva, esvaziado o balão das emoções, para que serviria mesmo?

Para lhe colocar um carimbo, um rótulo, um selo de “produto estragado”? Para apontar-lhe o dedo, de cada vez que voltasse a dirigir um jogo, em qualquer estádio, noutro qualquer dia?

Esse peso – o da chacina em praça pública – não poderá ter efeito contrário? Não o inibirá a voltar às boas arbitragens? Não terá peso negativo na sua consciência, na sua atuação seguinte, na sua liberdade de atuar? A divulgação do “castigo”, afinal, serviria para quê? Serviria a quem?

Para refletir. Apenas para refletir.

 

Fotos: Tribuna Expresso.

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